“Bom velhinho” portobelense pede ajuda para continuar multiplicando sorrisos no Natal

“Querido Papai Noel. Queria ganhar neste Natal uma bicicleta. Pode ser usada, pois minha mãe não pode me dar e eu gosto muito de bicicleta”, pede uma menina na carta que Jonas Amadeu Raulino, 47, encontrou na terça-feira (5) em sua caixa de correio. Não se trata de um caso de extravio de correspondência: para as crianças de Porto Belo, o Polo Norte fica mesmo na Capitão Gualberto Leal Nunes, 442, Centro. Há 17 anos o pedreiro e vereador (em segundo mandato consecutivo) veste a carapuça do “bom velhinho”. Desde 2017, na condição de Papai Noel oficial da municipalidade. E todo final de dezembro ele sai distribuindo balas e brinquedos aos quatro cantos da cidade, especialmente nas localidades mais carentes. Este Natal, porém, ele resolveu pedir a sua ajuda.

Não que Jonas realize sozinho o que, no coração de muita criança, se configura como um verdadeiro milagre natalino. Esse ato de solidariedade só acontece porque existem pessoas que o ajudam com transporte, balas e brinquedos. Entretanto, o que lhe chega às mãos já não dá conta da demanda. Para evitar colher decepções, o Papai Noel portobelense resolveu apelar em suas redes sociais: “Pessoal, ajudem aí”.

Papai Noel e a criançada: há 17 anos a rotina se repete (fotos: arquivo pessoal)

Jonas começou a se vestir de vermelho no Natal de 2002, motivado pelo sentimento de gratidão. Entre 1999 e 2000, ele viveu suas horas mais escuras, acometido de séria doença e impossibilitado de trabalhar. Só foi devido à solidariedade dos conterrâneos que não passou necessidade: “Nunca faltou pão na nossa mesa, graças a Deus”. Mas como atender ao pedido do próprio filho, na época com dois anos de idade, ávido por um presentinho de Natal? Novamente, a comunidade lhe valeu. Por isso, quando um amigo o convidou a encarnar o conhecido personagem, não titubeou. O amigo logo desistiu da empreitada; ele não.

Com o tempo, Jonas aperfeiçoou a persona. Uns meses antes de dezembro ele já começa a cultivar uma barba de profeta bíblico, que exibe durante as sessões da Câmara de Vereadores. Quando a gestão municipal o convocar para proceder a aparição em praça pública que abrirá os festejos de Natal deste ano, dia 7 de dezembro, terá os pelos faciais descoloridos por efeito de amônia e assumirá os maneirismos do “bom velhinho” com toda a dignidade que o cargo exige. Em anos recentes, ganhou a companhia de uma “mamãe noel”: a contadora de histórias da Fundação Municipal de Cultura Janaira Reis. “Ela me ajuda bastante”, reconhece.

Para o Noel da cidade, surpreende a maneira como é recebido por crianças e adultos. Alguns velhinhos, ele observa, ficam faceiros iguais guris. Outros agradecem com sincera emoção o brinquedo simples que lhes é ofertado: “Se não fosse o senhor, o meu filho não ia ganhar nada”, já ouviu de uma mãe. De tanto perambular por aí, Jonas sabe a penúria que muitas famílias passam na cidade. Por isso, muitas vezes ele acaba retornando, da segunda vez com cestas básicas na bagagem.

Claro que, como representante do Legislativo, sua ação social corre o risco de ser confundida com cálculo político. Jonas, porém, descarta essa leitura: “Faço de coração”. Essa abnegação, inclusive, facultou-lhe a compreensão do pastor de sua igreja. Evangélico, o Papai Noel de Porto Belo não vê conflito com os ditames de sua fé.

Em praça pública, na cerimônia de abertura do Natal do ano passado

O que realmente pesa é a imensidão que a tarefa representa, o fato de saber que há muitos contando com ele. Essa certeza, inclusive, o impediu até aqui de pendurar a casaca vermelha. Não é só porque os dias que antecedem o 25 de dezembro (“faz tempo que não sei o que é uma ceia de Natal”) são consumidos virtualmente distante dos seus. Na abertura do Natal do ano passado, por exemplo, ele ficou até perto das duas da manhã atendendo a enorme fila que se formou diante da “casa do Papai Noel” montada na Praça da Bandeira.

Por que não desistiu ainda? Porque Jonas promove, de fato, pequenos milagres, como fazer adultos acreditarem na magia do Natal, olhinhos brilharem em agradecimento e realidades suavizarem, ainda que por uma noite. E também porque a garotada — que de boba não tem nada — meses antes interpela o pedreiro para se certificar: “Jonas, este ano tu vai passar na minha rua, né?”

Então, que tal ajudar o bom velhinho a manter a chama acesa? Doe qualquer brinquedo (quem sabe uma bicicleta usada? Uma certa menininha vai amar) ou doces para que ninguém fique sem Natal. Papai Noel agradece. As crianças ainda mais.

Contatos pelo WhatsApp 9938-7517.