O porta-voz do rock catarina

Daniel Silva, criador do site Rifferama, é o responsável por colocar a música do Estado no mapa

Nos idos dos anos 1980, quando a música pop dominava a programação das rádios FM, vivia-se um boom de bandas nacionais: tínhamos o chamado “BRock”, movimento devidamente radiografado pelo jornalista Arthur Dapieve no livro de mesmo nome, lançado em 1995. Era uma época em que se ouvia muito Barão Vermelho, Legião Urbana e Paralamas do Sucesso — sem contar a safra de bandas gaúchas, encabeçada por Engenheiros do Hawaii e Nenhum de Nós.

Bons tempos? Daniel Silva arrebenta com essa ilusão de uma paulada: a maioria das bandas desse período era uma bela porcaria (ele usa uma palavra um pouco menos graciosa). Bom mesmo, em sua opinião, é o som que se faz hoje em dia — em especial, aqui mesmo no Estado. Daniel sabe do que está falando, pois é o responsável pelo Rifferama, o site que mais garimpa talentos da nova cena autoral catarinense.

JORNALISTA MUSICAL

Natural de Blumenau, porém tendo crescido em Biguaçu, Daniel é jornalista e atualmente vive em São José, na Grande Florianópolis. Tem 32 anos de idade e começou a prestar atenção em música aos doze. Na ocasião, caiu-lhe nas mãos o disco Dookie, o mais popular trabalho da banda norte-americana Green Day, lançado quatro anos antes. “Foi minha primeira banda preferida”, recorda.

Daniel Silva com Luanda Wilk durante o primeiro Festival Rifferama: escrever para o site é uma paixão (fotos: Tóia Oliveira)

O fã de rock, entretanto, jamais teve o empenho ou a aptidão necessários para aprender a tocar um instrumento. No máximo, bancou o frontman de uma banda lá de Biguaçu, experiência sem muito lastro. Considerou, portanto, que o jornalismo seria a melhor maneira de se aproximar desse universo — daí o seu ingresso na Estácio de Sá, de onde saiu com um diploma em 2009.

A intuição se mostrou certeira e, na redação do Notícias do Dia, onde bateu cartão durante quase sete anos (“entre idas e vindas”), conseguiu cavar algumas pautas em meio ao noticiário de geral e esportes — principalmente quando havia boas apresentações na Ilha. “Cobri alguns shows internacionais, como os do Yes, Motörhead e Guns’n’Roses. Entrevistei várias bandas e artistas nacionais nesse período e também o Steve Vai, quando ele veio ensaiar com a Camerata para o show no Rock in Rio [em 2015]”, destaca.

SITE DE MÚSICA

Em 2013, Daniel “jogou um psicológico” em Alexandre Gonçalves, gestor de internet do Grupo RIC, ao qual o ND pertence: “Eu pedi a ele um espaço para escrever no portal da empresa e ele sugeriu que eu fizesse um projeto e apresentasse”. Pronto, em 1° de agosto daquele ano nascia o Rifferama, que se tornou uma referência para quem se interessa pela música catarina.

O site ficou debaixo da asa do RIC+ até setembro de 2016. Depois disso, tornou-se independente, inaugurando a nova fase com uma resenha do álbum Afinar as Rezas, da banda de reggae rock Dazaranha. Desde então, Daniel praticamente não perde um só lance da produção autoral catarinense. E não é porque esta seja tediosa — bem pelo contrário.

Home do Rifferama: mais de 200 posts em 2018 (foto: Reprodução)

— Ano passado foram 170 lançamentos, entre álbuns e Eps — informa o responsável pelo site, que se vira para manter o público por dentro de tudo o que acontece. Alguns colaboradores ajudam escrevendo resenhas, mas o braçal mesmo fica por sua conta.

— Eu recebo bastante material e poderia ter uma atualização ainda mais constante, mas prefiro escrever o que sai no portal, então todas as mais de 500 matérias [que o Rifferama publicou até aqui] foram eu que escrevi, exceto os posts de colaboradores [em torno de 40 resenhas publicadas em 2018, de um total de mais de 200 posts no ano].

Tudo isso, como se diz, feito “no amor”, visto que Daniel não tira grana do site. “Pra não dizer que nunca recebi nada do Rifferama, no ano passado fui contratado pela prefeitura de Brusque para cobrir o Rock na Praça e bater um papo com os músicos da cidade. Mas o site não tem nenhum retorno financeiro, algo que espero mudar em breve”, planeja o jornalista, que é assessor de comunicação da prefeitura de Antônio Carlos e se dedica ao projeto no pouco tempo que lhe sobra: “É puxado, mas escrever para o Rifferama é uma grande paixão, algo que me motiva demais”, garante.

CENA INTENSA

Ninguém precisa ligar o rádio para perceber que o rock despencou do mainstream. Hoje, o funk, o pagode e o sertanejo dão as cartas nas rádios e nas atrações de domingo da tevê aberta. Seria, ao menos por aqui, a tal pá de cal que já se quis lançar sobre o estilo em tantos momentos nesses quase 70 anos de existência?

— Tem uma frase que não me canso de repetir: a música no Brasil vive o seu melhor momento, em qualidade e quantidade. Temos bandas de altíssimo nível em todas as vertentes, como nunca antes tivemos. Só não sabe disso quem não vai atrás e se contenta em ouvir as mesmas 20 bandas a vida inteira — cutuca Daniel, que situa a produção do Estado no alto dessa boa fase.

A turma toda no palco do 1° Festival Rifferama: apoteose

— O diferencial da nossa cena, acredito, é que temos uma diversidade incrível, ainda mais se levarmos em consideração o tamanho do nosso estado. A galera também está investindo cada vez mais em apresentar um material melhor, boas gravações, clipes, bom trabalho nas redes sociais — destaca.

Nesse contexto, o Rifferama se coloca como um reforço de peso, ainda que não possa ser considerado um canal de absurda popularidade, principalmente em razão da segmentação — ao menos, no que diz respeito ao público que consome música e ainda não despertou para o potencial do que é feito aqui, comportamento que reproduz o tradicional descaso da mídia para com as bandas catarinenses. Para quem vive e se dedica a essa arte no Estado, o site é um reconhecido parceiro.

— Os números são importantes e temos alguns indicadores muito bons, mas o que mais me interessa é o respeito que conquistei nesses anos de trabalho, principalmente por parte dos músicos — reforça Daniel Silva, que viveu seu momento de apoteose em outubro do ano passado, com a realização do 1° Festival Rifferama.

Apresentado no Teatro Álvaro de Carvalho (TAC), em Floripa, em parceria com a produtora Luanda Wilk e a banda local Parafuso Silvestre, o evento contou ainda com o duo brusquense Capim e a Orquestra Manancial da Alvorada, octet0 multi-instrumental da Capital.

Era uma noite de terça-feira, pouco propícia a espetáculos, e um dilúvio encharcou a Ilha pouco antes do início das apresentações. Mesmo assim, na opinião do realizador, foi tudo lindo.

O vídeo abaixo registra alguns momentos da festa, que deve se repetir em 2019:

Anteriores

Postes feios merecem cores bonitas

Próximo

É dia de feira

  1. Marina Borges

    Vida longa ao Rifferama! ♥️

  2. Alexei Leão

    Animal a matéria! O Daniel Silva é o cara meamo e SC vive o nelhor momento musical da história!!!

  3. Que coisa linda essa matéria, parabéns Daniel com o Rifferama e Alcides com o Pirão dágua. São os meus 2 blogs preferidos, sempre estou na espera do próximo lançamento. A música Catarinense agradece vocês!

  4. Bruno Santiago

    O Daniel é um cara fundamental na promoção da cultura catarinense. Ele faz um trabalho sensacional há anos.

  5. Leo Ramos

    Lindo amigo! Baita texto e matéria!

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *