Pedaleiros

A cada dia aumenta o número de pessoas que encontram na bike um estilo de vida

Fabrícyo Looz largou o batente no primeiro dia de 2019 pelas 4h30 da manhã. Chegou em casa enquanto ainda se esvaziavam as últimas garrafas de cidra do Réveillon. Engenheiro de sonorização, ele recém-havia desligado a música e as luzes da festa promovida pela municipalidade na praia do Baixio. Recolheu seu pesado equipamento de trabalho, que momentos depois, em casa, retirou da Ducato adquirida de meia com o pai e sócio Vilson. Devia estar exausto, mas não pensou em descansar. Em vez disso, equipou sua bike e se pôs a caminho: “Às 7 horas eu já estava na rua”. Seu destino? O Santuário de Aparecida.

A história de Fabrícyo, 42, se insere naquilo que pretensiosamente chamarei de “ascensão dos pedaleiros”. Não busquei números para amparar o raciocínio, apenas a constatação que qualquer um que ande pelas avenidas da cidade pode fazer: o número de gente usando bicicletas cresceu como nunca. Mas não é um público que use a “magrela” como mero meio de transporte, uma condução para chegar mais rápido ao trabalho, por exemplo. Esse povo de que falo usa a bike como lazer. Mais precisamente, como parte de um estilo de vida.

Fabrícyo Looz: pedal até Aparecida após o Réveillon (foto: Facebook)

E não se trata, em boa medida, de pedaleiros de fim de semana. A qualquer hora ou dia da semana é possível vê-los ocupando ciclovias ou faixas de rolamento, solitários, em pares ou aos bandos, com suas zicas repletas de avanços tecnológicos, suas vestimentas coloridas e suas luzes piscantes feito vaga-lumes em noites de primavera.

Faz parte desse movimento pessoas como Aristides João Filho. A relação de “Ti”, 44, com o pedal segue o roteiro habitual: compensar alguns números do mostrador digital da balança e, no seu caso específico, ter algum ganho aeróbico para suportar os “rolas” no tatame de jiu-jitsu. Isso em 2017. Em junho daquele ano, conseguiu cobrir oito quilômetros e se sentiu como DiCaprio na proa do Titanic. Quatro meses depois, já estava apto a pedalar 132 km. “Fui a Florianópolis e voltei”, lembra.

A viagem entre Porto Belo e Aparecida, no interior de São Paulo, conta-nos o Google Maps, é de 820 quilômetros. Uma distância de respeito, mesmo para ir de carro. Fabrícyo, porém, não fez grandes planos (“grandes”? Provavelmente, não fez nenhum). Saiu de fininho, antecipando sua largada em um dia para surpreender os familiares, que decerto ansiavam por fazê-lo desistir da loucura. “Mas será que seu eu tivesse planejado, eu iria?”, raciocina.

Como única credencial, ele contou com o fato de pedalar desde moleque. Natural de Major Gercino, o ex-cantor de baile costumava ir da cidade natal até Itapema, onde trabalhava em uma loja de CDs, de bicicleta. Isso dá coisa de 115 km. Tinha uns treze anos na época. Depois de um tempo, encostou a magrela. Só voltou ao velho hobby três anos atrás. A razão foi que precisava de alguma atividade física. Comprou uma Caloi 500 e logo em seguida comprou outra na mesma linha: “Não tenho necessidade de coisa muito cara”.

Aristides Filho: primeiros 8 km foram como conquistar o mundo (arquivo pessoal)

De fato, quem entra na rotina do pedal logo percebe que se trata de uma brincadeira dispendiosa. Everaldo Laurêncio, por exemplo, já despejou algum “cascalho” na sua magrela, um modelo importado que custou-lhe quase R$ 8 mil — sem contar o que já gastou para melhorar a performance da zica e a despesa habitual com revisão. Mesmo assim, ele nem está perto do quanto realmente custa uma “máquina de pista” top de linha: algo na casa dos 70 contos.

Everaldo é uma espécie de decano do pedal portobelense. Aos 48 anos de idade, o instrutor de autoescola e microempresário começou a andar de bicicleta regularmente faz uns seis anos. Na época, pode-se dizer que a coisa era uma novidade por aqui. O motivo da adesão foi uma daquelas notícias que ninguém quer receber: depois de sentir uma dor forte no peito, realizou uns exames e descobriu que flertava perigosamente com o piripaque. “Foi uma bagada”.

Com o corpo em ruína (colesterol nas alturas, diabetes e o escambau), não foi-lhe difícil aceitar a recomendação do doutor e, na mesma semana, comprar uma Caloi de 24 marchas. Foi um começo árduo, mas Everaldo estava determinado a não morrer de infarto. Depois de dois anos, um novo check-up apresentou resultados animadores. Nessas alturas, ele já não pensava mais em parar.

A viagem até Aparecida levou seis dias. A média diária foi de 130 km. Fabrícyo pedalava até escurecer — ou até quando policiais rodoviários o encontrassem e ordenassem que saísse da pista. Então, era questão de achar algum lugar onde houvesse chuveiro e cama para descansar e seguir em frente no dia seguinte. Incrivelmente, ele não sentiu cãibras em momento algum. Em compensação, sofreu com assaduras, que o fizeram guiar de pé a maior parte do caminho. Além disso, na Estrada da Graciosa, em Curitiba, teve insolação.

Sua principal preocupação, entretanto, era topar com algum meliante. Um dos momentos mais tensos da viagem, aliás, foi quando estouraram os dois pneus da bike bem na entrada de uma favela, já no final do dia. Pareceu um incidente bastante conveniente, porém sem maiores consequências (na verdade, Fabrícyo teve mais azar em sua própria casa: em abril do ano passado, alguém pulou o muro de sua residência no Perequê e saiu de lá com a sua bicicleta. Ele teve de comprar uma nova alguns meses depois).

Incidentes são parte da rotina dos pedaleiros. Pelo menos, dos mais aventurosos. Everaldo contabiliza algumas quedas feias na carreira. Como quando meio que apagou descendo a 40 km/h o Morro da Pipa, no interior de Canelinha, cuja altimetria é de 1260 metros. “Eu sempre gostei de me superar”, justifica.

Everaldo Laurêncio: estreia no pedal após flertar com piripaque

Mesmo quem não é de forçar a marcha, como ele, está sujeito a tombos. “Todo mundo que usa clip já caiu”, explica Ti. O clip é um engate que mantém a sapatilha presa ao pedal. O sujeito esquece que está fixado a ele e, ao tentar parar, vai direto ao chão. São coisas com as quais quem se aprofunda na brincadeira tem de lidar — assim como se vai pedalar sozinho ou aderir a um dos muitos grupos de pedal instituídos na região. Tem grupos mistos, só de meninas, de colegas do trabalho ou de competidores.

Um deles o próprio Aristides deu início (“caí na bobagem, na vaidade de montar”). Começou com mais dois colegas e a coisa logo agigantou. Como é perfeccionista, desenhou um layout para o uniforme do grupo, criou perfil em rede social, lista de WhatsApp — que rapidamente bateu a casa dos cem participantes. Mas Ti não ficou para ver aonde ia dar.

Everaldo, que participou do primeiro grupo de Porto Belo, prefere andar sozinho. Existe muita competição envolvida, o que provoca polêmica entre os integrantes — especialmente porque muitos não gostam de esperar por retardatários. Por isso, seu barato é sair à Easy Rider, sem destino. Algumas vezes, Fernanda, sua esposa, o acompanha, ocasião em que desfrutam de um diálogo que nem sempre ocorre do portão para dentro. “A minha cachaça é essa aqui”, conclui, espalmando a mão no banco da bike. Há doze anos sem fumar nem beber, Everaldo sabe o quanto isso significa.

Quando finalmente encostou a magrela nas imediações do Santuário Nacional de Aparecida, dia 6 de janeiro, Fabrícyo sentiu aquela sensação poderosa de quem conquistou o cume do Everest. Sendo franco consigo mesmo, ele não esperava chegar tão longe. Nem havia motivação tão forte envolvida, era apenas questão de dar uma “desbaratinada, atravessar um ano complicado de uma forma boa”. Olhando em retrospectiva, reconhece que talvez fosse boa ideia ter se planejado um pouco melhor. Mesmo assim, ficou feliz por poder adentrar o santuário da Padroeira e agradecer à famosa imagem pelo ano que passou. “Foi tudo muito bem”.

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Vinhos e paisagens da serra catarinense

  1. Aristides João

    Dil e sua escrita precisa. Demorou mas parece que falamos hoje ou melhor dizendo do agora. Parabéns pelo texto, obrigado pela conversa é uma exceção! Eu nunca cai 😬 Talvez isso logo aconteça kkkk quem tá na chuva pode se molhar… Abraço DIL

    • Alcides Mafra

      Valeu, Ti! Já estava ficando feio o tempo que levou pra concluir. Mas aí está. Abraço!

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