Surpresa na estrada

Tem vezes em que lamento a minha teimosia de não querer usar celular. A principal delas é quando me deparo com uma cena incrível e não tenho o maldito aparelho para fotografar.

Aconteceu ontem mesmo: fazia uma corrida quase no final do dia, maltratando as articulações após uma semana inteira de letargia, quando tive uma surpresa na estrada.

Estava para lá da praia do Estaleiro, quando o curto trecho pavimentado volta a dar lugar à estrada de terra que segue até a Ponta do Araçá. Em uma curva, dei de cara com um enorme gavião que, quase no meio do caminho, devorava o que parecia ser uma cobra.

Atrapalhado o seu jantar, a ave fez um voo curto até uma árvore no lado esquerdo da estrada, enquanto eu constatava se tratar de um lagarto, ou o que havia sobrado dele: pouco mais que uma espinha dorsal e o couro escamoso.

Era um pássaro majestoso como uma águia americana. Diria que tinha uns 40 centímetros do bico à cauda (desculpe se exagero; nunca fui muito bom em estimar medidas no olho), o topo da cabeça parecia ter uma faixa branca (ou seria preta?), a ponta da cauda enfeitada com uma listra da mesma cor.

Quis perguntar ao ciclista desconhecido com quem fazia uma informal disputa (ele havia me ultrapassado na subida do Caixa D’Aço; eu o alcancei mais adiante, quando parou para esvaziar os pneus da bike, voltei a ser superado pouco depois do encontro com o gavião e o deixei para trás quando parou para apreciar a vista da Ponta do Araçá; me superaria definitivamente dois quilômetros depois) se tinha visto a ave, mas apenas dei a volta no fim do trajeto e comecei a subida de retorno.

Esperava encontrá-la no mesmo lugar e quem sabe definir que bicho afinal era, mas já não estava. Apenas o que restou da carcaça jazia na estrada (qualquer chance de vê-la foi frustrada por um automóvel que cruzou o local minutos antes).

Em casa, tentei desvendar o mistério. Procurei no Google por aves de rapina encontradas no Estado. Imaginei se poderia ser um gavião-real, o rei das aves de rapina do Brasil, cuja imagem tinha certo paralelo com o que vi (tirando o curioso penacho meio mohawk), mas é pouco provável: embora já tenha sido avistada em Santa Catarina, a harpia é bicho enorme (pode chegar a dois metros de envergadura), vive nas matas mais altas, em especial na Amazônia, e está em risco de extinção.

Passei ao segundo candidato, mais realista, o gavião-pombo-pequeno. Conferi que seu habitat é a Mata Atlântica e que, embora se alimente principalmente de insetos, eventualmente ataca pequenos animais. Entretanto, embora o padrão na cauda se assemelhasse ao da ave que vi, o gavião-pombo é predominantemente branco. O outro não parecia assim.

No final das contas, talvez fosse apenas um carcará.

Devido à ausência de prova documental, jamais saberei o que realmente era. Ao menos, posso fazer um desenho da cena, ainda que meu rabisco nem de longe represente a cena que ficou gravada na memória. Mas é o melhor que pude fazer, pessoal.

Ah! Sobre o título do artigo, devo dizer que o fiz como homenagem (os haters dirão “plágio”) a uma das fotografias de que mais gosto, de autoria do fotógrafo e historiador Boris Kossoy. Você pode vê-la aqui.

E caso tenha gostado deste pequeno relato de corredor de fim de semana, talvez se interesse por outros textos relacionados às minhas experiências “on the road”. Neste post, por exemplo, você desvenda as peripécias de um meia maratonista de um joelho só. Boa leitura!

Histórias de morte em balcão de bar

Plena manhã de quinta-feira e estou iniciando minha filha Cecília em uma velha tradição familiar: pouco antes da hora do almoço, nos encaminhamos ao bar do Miloca, ali perto da casa do meu pai, justamente para encontrar seu Arão.

Alguns minutos antes, estávamos, eu e ele, empenhados em derrubar um poste de concreto que havia na frente de casa e estava deteriorado pela maresia. Finda a tarefa, seu Arão resolveu tomar um gole.

Quando moleques, meu irmão e eu costumávamos ir “resgatar” o meu pai nos bares da cidade. Sempre que estava em terra, de folga da pescaria, ele batia ponto no bar do seu Môri, da dona Maria ou do seu Saul Bértemes, e era com alegria que recebíamos a tarefa de buscá-lo para almoçar. Havia sempre a expectativa de ganhar balas e refrigerantes.

Pois bem, fomos eu e a Cissa até o bar do Miloca. E lá estava seu Arão, de pé diante do balcão, junto com o Miro do Izaltino e o Ivo, serralheiro. Diante deles, três “martelos” de cachaça. A do Ivo, branca como água, as outras de um amarelo dourado. Miloca atendia ao trio do outro lado do balcão.

Com a Cissa entretida com a mascote do bar, uma pequena gata branca e malhada, sentei-me a uma das mesas de plástico para tomar uma cerveja, cortesia do seu Arão, e ouvir a conversa dos três.

Ivo logo se despede, mas Miro engrena a contar causos de família, devidamente estimulado pelo meu pai. E é aí que fico conhecendo uma história de talvez uns cem anos atrás, envolvendo o avô do Miro, José Basílio, e o irmão deste, José Eduardo.

Segundo o ascendente dos dois Josés, houve uma briga entre os irmãos que terminou de maneira trágica: Basílio cravou um machado nas costas de Eduardo. Isso ocorreu diante da cruz que antigamente se erguia na beira da praia, defronte à igreja matriz de Porto Belo.

Foi um caso rumoroso, garantiu Miro. Mas não foi o único crime envolvendo sua família. Anos mais tarde, um irmão seu, Nino, voltava de uma noitada de baile no Vila Nova. Mas houve confusão e ele foi perseguido e morto por uma turba. Seu corpo apareceu boiando próximo à linha da maré, perto da antiga salga e — coincidência sinistra — da cruz onde, décadas antes, seu avô matara o irmão.

 

Piva e o Capitão Brasil

Era uma manhã de domingo e o seu Piva recebia, resignado, o derradeiro adeus. Ainda no carro, na chegada ao cemitério, Bete me lembrou da crença popular: quando alguém é enterrado num dia de sol, é porque se vai sem tristeza de partir. E o dia estava realmente lindo: um azul luminoso no céu e um calor que fazia pouco-caso de estarmos em pleno outono.

Imagino que o seu Piva não tivesse realmente motivos para se queixar. Viveu uma boa vida, desconfio. Talvez apenas lamentasse não conhecer o neto que só chegou dias depois. Ou, por outra, o tenha visto de passagem, se há algum lugar onde os que vão e os que chegam se encontram para um aceno.

Convivi um pouco com o seu Piva, na época em que o Roberto fazia parte da turma. Frequentei sua casa nessa época. O Roberto, ele também Piva, estreou no grupo no dia do seu aniversário, 25 de setembro, numa excursão que fizemos a Brusque para um show de rock.

Fomos até lá todos felizes e nos sentindo destemidos ao arriscar a vida mal acomodados na traseira da caminhonete movida a gás (de cozinha) do Denis, cantando as músicas do nosso repertório e bebendo qualquer coisa de péssima qualidade.

Foi bem na época do movimento pelo impeachment do presidente Collor, 1992, e havia aquele clima de euforia, de que estávamos fazendo a coisa certa e que, no fim das contas, este país tinha, sim, jeito….

Saltamos da carroceria próximo ao palco, montado ao ar livre. Ao fundo, o iluminado Hotel Monthez parecia suspenso na escuridão. Enquanto as bandas faziam a passagem de som, a turma se divertia praticando seu esporte predileto: esculhambar Cacau Menezes, colunista do DC que, afirmava ele, havia ajudado a promover o evento.

Foi mais ou menos nesse momento que o Silvanio, já meio alto, subiu ao palco, tomou do microfone e passou a bradar palavras de ordem contra Collor de Mello. Detalhe: “Chuck”, como a gente o chamava, usava uma bandeira do Brasil amarrada ao pescoço, antecipando em 26 anos o figurino que se viu pipocar nas ruas do país às vésperas do primeiro turno da eleição presidencial deste ano. Nascia ali o “Capitão Brasil”, um ícone da nossa mitologia particular.

Empolgado com a audácia do “Capitão”, Piva não deixou por menos e também invadiu o palco, assumiu o microfone e resolveu reger a empolgada plateia com músicas populares do cancioneiro punk ― para diversão de João Gordo, da banda hardcore paulistana Ratos de Porão, principal atração da noite.

E o clima de anarquia seguiu noite afora, com o Candôco saltitando pelos suportes no fundo do palco e desligando as caixas de som (com qual objetivo, só Deus sabe).

A certa altura, o furtivo Candôco viu uma garrafa de uísque dando sopa no backstage e, digamos, subtraiu-a, despertando a ira de Gordo, que ameaçou parar o show em razão do sumiço da bebida. Lógico que celebramos ― com o uísque do Gordo ― a façanha do Candôco.

Tudo isso ocorreu faz muito tempo, e hoje a rapaziada praticamente dispersou. Recentemente, encontrei o “Robert” em duas ocasiões. A última delas domingo (7/10), no Tiradentes, durante a eleição do primeiro turno. Na conversa, nenhuma dessas reminiscências, apenas impressões sobre o futuro ― que, a propósito, parece que virá com um certo cheiro de naftalina.

Do Chuck, pouco sei. Mas realmente tenho visto muitos capitães Brasil por aí, e a tônica do discurso deles de algum modo se assemelha ao protesto que Silvanio conduziu naquela noite. É, novamente, a corrupção que mobiliza a indignação popular. A diferença, hoje em dia, é que não existe unanimidade. O que temos é uma cisão irreparável da sociedade ― e a exacerbação do ódio.

As ruas exalam uma virulência que não se conhecia naqueles tempos, resultado da capacidade que as pessoas têm hoje em dia de expor suas ideias, por mais condenáveis que sejam, sob o abrigo de um IP de computador. Não há o olho no olho, por isso cada um diz o que quer, numa competição alucinada para ver quem despeja nas redes sociais as piores barbaridades.

Mais do que isso, há um sentimento de desesperança e frustração que, canalizado de modo eficiente por forças ligadas a uma personagem até então obscura da política nacional, tem nos levado a uma histérica adesão ao discurso de enfrentamento do “tudo o que está aí”. Houve já uma figura que, como disse FHC (porém, noutro contexto), “vestiu o figurino”: chamava-se Fernando Collor de Mello.

Fico apenas imaginando se o Capitão Brasil dos nossos bons tempos aderiria a esse hipnótico sentimento nacional. Não dá para saber, pois já não somos os mesmos. O que temos para hoje é uma onda que, tal como A Onda, quer varrer as instituições e nos levar de volta a um tempo ainda mais sombrio do que aquele em que nos foi apresentado o famigerado Caçador de Marajás.

E hoje se vai o Tatuíra

Faz um tempo, chamou-me a atenção o fato de uma lanchonete de nome Viking fechar suas portas, após persistir um verão e meio, talvez dois.

Era um gancho irresistível para introduzir um problema que se tornava evidente e que o fotógrafo Gilmar Castro recentemente batizou de “desertificação do Centro”: uma tendência de os pequenos negócios da cidade encerrarem suas atividades, deixando para trás uma quantidade escandalosa de salas vazias e placas de “aluga-se”.

A ideia do Viking parecia boa porque sugeria uma metáfora (ou licença poética): nem a resiliência do bravo nórdico foi capaz de vencer a aridez da economia local. Sem contar que o negócio ocupava um espaço que já foi representativo do comércio portobelense (o Centro Comercial Dolce Vita), mas que hoje está quase às moscas. A Ofício das Artes, loja de artesanato de longa data, já havia saído, bem como a Tok’s, do mesmo segmento. Atualmente, praticamente só o tradicional barbeiro Luiz Roslindo bate cartão naquele “soturno”, como diria meu pai.

Passou o tempo, mais portas se fecharam e hoje temos que a petisqueira Tatuíra, um dos bares mais célebres do Centro, faz seu último serão. Como não poderia deixar de ser, a banda Música Orgânica, dos parceiros Carlinhos, André e Cezinha, ficou encarregada de realizar o show derradeiro da casa.

Em razão de mais essa importante baixa, Gilmar Castro voltou a abordar o fenômeno em sua página no Facebook. “Sabemos que existem vários motivos para isso: a economia nacional, como um todo, encontra-se em recesso. O governo do Estado está, também, passando por uma crise política gravíssima”, observou Gilmar — que, por sinal, tem seu negócio vizinho ao Tatuíra.

“Existem, contudo, problemas únicos ao nosso município”, continuou o fotógrafo, destacando a questão da mobilidade urbana, cujos obstáculos já não se resumem à alta temporada. Seu post mereceu, até aqui, 28 comentários.

É difícil, realmente, estabelecer os motivos para a ressaca da economia local. O penoso cenário nacional sem dúvida contribui: a escalada dos preços no mercado corrói o poder aquisitivo do sujeito, que se vê obrigado a limitar opções. Há muita gente desempregada e sem perspectivas também.

Há mais coisas, sem dúvida. O pedágio no morro de Bombas, que de certa forma represa os turistas do lado de lá, como sugeriu o músico André em comentário no post do Gilmar, poderia ser uma delas. Ou as filas enormes do verão, que sufocam a avenida principal. E também a infraestrutura precária do Centro, que faz dele um pobre cartão-postal. E podemos ainda supor que a instalação dos grandes atacadistas no bairro Perequê exerçam uma forte pressão sobre os pequenos negócios da cidade.

Mas me intrigou o comentário que Marlun Rebelo, amigo de infância, fez em resposta ao que Gilmar postou. “Estamos nos tornando um bairro de pobres e em breve sem opção de compra e geração de emprego, como já acontece”, escreveu Marlun, que defende a revisão do plano diretor do município para que se permita construções com mais patamares na região central. “Mercado de luxo, verticalização, aliada com o mercado náutico de luxo”, resumiu ele o que considera ser a solução.

A ideia de verticalizar o Centro não é nova. Vem de antes do atual cenário e corresponde ao desejo de algumas pessoas de verem Porto Belo se equiparar a Bombinhas e Itapema no segmento da construção civil, com todos os negócios que adviriam daí.

Os que defendem esse ponto de vista normalmente veem quem prefere manter o Centro “histórico” como arautos do atraso. Aí está o Marlun que não me deixa mentir: “Meia dúzia de pessoas que são contra o crescimento, que entram com ação no MP para proibirem obras, como por exemplo o Segundo Acesso, é que são de certa forma culpadas desse processo de fechamento do comércio”, completa o meu amigo.

Não sou expert no assunto, mas acredito que a verticalização traz sérios problemas que quem a defende esquece de mencionar: piora das condições de saneamento e balneabilidade, êxodo dos moradores tradicionais em decorrência da valorização das unidades prediais, aumento da população fixa acima do que a cidade suporta e agravamento do problema de abastecimento de água — que, aliás, está no centro da mais recente polêmica entre Porto Belo e Bombinhas.

Falando nessa relação, me ocorre que talvez um pouco do problema seja de fundo psicológico. Penso que nós, cá de Porto Belo, sofremos uma espécie de “síndrome de vira-lata”, conforme descrita pelo grande Nelson Rodrigues, que faz com que, desde a emancipação do balneário vizinho, nos vejamos como patinhos feios e não consigamos perceber as boas coisas que temos aqui. Pode não influenciar em nada, mas com certeza não ajuda ter uma autoestima tão baixa.

Mas, voltando ao que comentou o Marlun, sou daqueles que pensam que o Centro deve seguir sendo “histórico” e que tenha o seu planejamento voltado para o convívio e a mobilidade das pessoas (como sugeriu Gilmar), com amplos espaços para a circulação de pedestres e um desenho urbano que privilegie a identidade da cidade (de inspiração portuguesa). Um local pitoresco, com diferencial em relação aos vizinhos e que ofereça motivos para alguém querer parar (não vejo a construção de mais prédios como razão suficiente).

Recentemente, o jornalista William Wollinger Brenuvida, também em post no Facebook, mencionou a cidade alemã de Heildelberg como um exemplo para a sua Governador Celso Ramos: “Imaginem se pudéssemos investir em mobilidade urbana, locais públicos, transporte marítimo, despoluição de rios e do mar!”, sonhou ele. Exagero comparar nossas cidades com uma joia como Heildelberg ou qualquer outra cidade histórica europeia? Colocá-las em pé de igualdade, sem dúvida, mas usá-las como modelo de desenvolvimento, penso que não.

Além disso, solucionar o problema do saneamento básico é pauta urgente, urgentíssima.

Claro que tudo isso esbarra em dificuldades. Dinheiro é a principal delas, e lidar com a falta de espaço para aplicar algumas melhorias urbanas também atrapalha, basta ver como a Governador Celso Ramos se espreme entre parcas calçadas e muitos postes em alguns trechos. Faltam árvores, canteiros, limpeza das vias e um discurso afinado entre os setores produtivos e o poder público, no sentido de viabilizar um plano integrado de revitalização do Centro (não com vistas a descaracterizar o que já estava bom, como aconteceu com a Praça da Bandeira) e dar publicidade de tudo isso, de maneira a capitalizar com o que poderia se chamar “a retomada do Centro”.

Faz muito mais sentido, no meu ponto de vista, poder levar minha filha para assistir a alguns artistas de rua de diferentes países apresentando seus belos teatros de bonecos, como aconteceu nesta quinta-feira e no domingo, sem alarde nem fanfarra quando deveria ter, do que caminhar à sombra de arranha-céus. Mas, repetindo o amigo Marlun, essa é a minha singela opinião.

E qual é a sua?

Em tempo: vai deixar saudade o Tatuíra…

Biel coleciona música (e muito mais)

Audiófilo e fuçador, Carlos Gabriel construiu um acervo de bolachões de respeito

Biel exibe alguns dos seus troféus: “Não vendo e não troco”

Na Olavo Berlinck, uma estreitíssima rua paralela à avenida principal de Tijucas, encontramos um gourmet. Não, Biel não é um apreciador da alta gastronomia (ou seria? Acabou que não lhe perguntei a respeito). Ele é, isso sim, um degustador da fina-flor do samba e da MPB, o que faz com a cerimoniosa dedicação de qualquer bom “garfo”. Podemos dizer, para melhor compreensão, que Biel coleciona música.

“Eu gosto de guardar velharia”, descomplica o tijuquense de 35 anos que traz na certidão o aristocrático nome de Carlos Gabriel de Campos Silva. Topógrafo a serviço da concessionária Autopista Litoral Sul há uma década, Biel é talvez um dos mais importantes colecionadores de música brasileira da região.

Essa importância (atribuída por mim) não se mede na quantidade de discos de vinil que ele tem na casa que divide com sua mãe, dona Janice. Deve possuir pouco mais de mil “bolachões”, rigorosamente organizados em um armário no seu quarto e também — nem tanto — em caixas espalhadas pela residência. O próprio Biel reconhece: tem gente por perto com muito mais do que isso. Porém, ele faz uma distinção importante: os outros são apenas “acumuladores”.

Gabriel, por outro lado, é um entendido. Sua paixão por vinis começou lá por 2007. Um amigo trouxe-lhe do Rio de Janeiro uma cópia do álbum Da lama ao caos (1994), do Chico Science & Nação Zumbi. Na época, da coleção de discos que seu irmão Cláudio uma vez possuiu, havia sobrado apenas um Catch a fire, clássico de 1973 de Bob Marley, e um disco de música nativista (dOs 3 Xirus, aparentemente).

Não havia ainda a febre do vinil, mas Biel achou que seria interessante arranjar um toca-discos e adquirir alguns LPs, então vendidos a preço de banana nos sebos ou doados aos montes por quem queria se livrar deles. Começou a bater ponto na Casa Aberta, clássico endereço dos amantes de discos e livros usados de Itajaí, e a percorrer os anúncios do site do Mercado Livre, em busca de lotes de álbuns à venda. “Aí, a brincadeira começou a ficar cara”, reconhece.

“O som do vinil é melhor, mas tem que ter um bom prato, uma boa caixa”

No início, o geomensor (e também técnico em administração, técnico em edificações e tecnólogo em gestão ambiental) tinha como alvo os discos de Música Popular Brasileira e seus intérpretes mais conhecidos, como Gilberto Gil, Caetano Veloso e Chico Buarque. Aos poucos, porém, seu gosto pendeu para o samba de Cartola, Paulinho da Viola, Clementina de Jesus e outros mestres do estilo.

Mas o hábito de adquirir discos em lote, na esperança de encontrar alguma “mosca azul” — e também o impulso de comprar muita coisa apenas pelo que sugeria a capa — fez com que ele acumulasse mais do que queria. Por acaso, em Porto Belo, os comerciantes do centro da cidade promoveram uma espécie de bazar e feira de artesanato chamada Conviver na Vila. Foi em 2015. Biel recebeu um convite para levar o excedente e vender durante o evento.

O resultado foi promissor. Daí para frente, ele passou a frequentar feiras de discos pela região. Encontrou uma comunidade entusiasmada e se sentiu em casa, aprendendo com os caras e especializando o seu entendimento musical — que também abre espaço para a música catarina (é seu objetivo lançar uma compilação de artistas do Estado. Em vinil, naturalmente). O lucro ficou em segundo plano; o que valia era a troca de informações.

Hoje em dia, não se acha mais disco bom a preço baixo. O mercado de vinil aqueceu no mundo inteiro, as velhas prensas voltaram a funcionar e as gravadoras retomaram os lançamentos em LP. Como consequência, rarearam as pechinchas (nada mais de achar disco a 3 reais, como um do Fagner que, cúmulo da sorte, trazia dentro providenciais R$ 600 — “eu tava f…. na época”). Biel, então, largou a venda de discos.

Mas não largou o vinil. Em vez disso, ele aprofundou seu interesse pelo assunto, investindo em equipamentos capazes de tocar suas preciosidades com a fidelidade que todo audiófilo merece. Assim, adquiriu desde um moderno toca-discos Pro-Ject a uma elegante vitrola embutida dos anos 1940, entre outras que Biel, com seu tique de colecionador de cacarecos, não podia deixar passar.

“Disco é diferente. É como uma música gourmet”, explica. Para ele, não é apenas o som, mas o prazer de manusear o bolachão, de correr os olhos sobre capas que são verdadeiras obras de arte e estudar os encartes, desvendando músicos, arranjadores e produtores. Uma experiência auditiva, tátil e visual que nenhum serviço de streaming poderia igualar. Por isso, acredita, o vinil voltou para ficar: “É o futuro”.

Recentemente, Biel incrementou seu acervo de itens musicais com a aquisição de raridades, como uma composição datilografada por Chico Buarque (assinada no verso pelo músico e familiares), uma partitura manuscrita de João Gilberto, fotos de ensaios para o álbum de Cartola, Nelson Cavaquinho e outros sambistas e slides de um trabalho de Pixinguinha.

Seu objetivo não é lucrar com isso, mas garantir que o material não se perca. O plano é doar tudo para alguma instituição dedicada à memória da música brasileira, como o Museu do Samba, no Rio. Ou então, dedicar um espaço especial na casa que pretende construir em Porto Belo para morar com Daiana Serpa, 30, sua (nem tanto) cúmplice nesse garimpo sem fim. Às vezes, quando comete alguma extravagância em suas transações pelo Ebay, imagina o que a companheira dirá: “Ela vai me matar!”

Para bem dos planos do casal, é bom que alguém lhe imponha um limite, pois Biel é compulsivo. Isso se deve, talvez, à sua curiosidade por tudo que tenha história, seja musical ou não. O que ele não tem é apego: todo o seu acervo vai para jogo facilmente, é só fechar negócio com ele.

Todo vírgula. Os três primeiros do Cartola e os discos de Lenine (Labiata) e Chico (Caravanas) que Biel conseguiu que os próprios autografassem, estão definitivamente fora de catálogo: “Não vendo e não troco”.

Diário de Cecília pt. 1: O tédio

Tarde de chuva e eu lidando com uma meia dúzia de telas na web, conversando com o Thiago no Facebook e tentando escrever algo produtivo.

A Cissa abandona o material de pintura que ganhou do amigo Pedroca e se interpõe sem cerimônia entre mim e o computador. Começa a batucar vigorosamente no teclado.

Por favor, Cissa, o pai precisa trabalhar!

Mas pai, estou entediada!

Com algum esforço, consigo convencê-la a me deixar retomar a tarefa (mas o trabalho já era). Ela decide pegar uma folha da impressora e rabiscar alguns desenhos com caneta. Demora só um minuto até que ela me fulmine com a seguinte pergunta:

Tu gostaria de voltar a ser criança?

Respondo que, provavelmente, sim.

Eu acho que não  replica ela, objetiva.

Ué, por que não?

E ela, do alto de seus seis anos de profunda sabedoria, arremata:

Vida difícil, vida difícil…

Praia coberta de prata

Pesca da tainha na praia de Bombas, 2016 (foto: Alcides Mafra)

Se em 2005 os cardumes passaram longe da costa bombinense, preferindo as malhas em alto-mar da frota industrial, neste ano de 2006 a temporada de pesca de tainhas começou cedo e foi, nos primeiros dias, marcada por surpreendente abundância. Maio, um mês desfavorável a esse tipo de pesca por ser normalmente quente, trouxe frio e muito peixe para os costões e praias do município. A comunidade fartou-se de tainhas e os turistas ocasionais divertiram-se acompanhando os nativos nos arrastões, molhando as canelas na beira d’água e emprestando braços para facilitar a tarefa de puxar as redes para terra. Dentro delas, centenas de corpos frenéticos tingiram a praia de prata nesse maio atípico, de safra recorde. Mas, em junho, o ímpeto diminuiu.

Talvez porque o calor tenha finalmente chegado. O feriado de Corpus Christi, dia 15, uma quinta-feira, amanheceu sob um teto azul manchado por poucas nuvens. Com o clima agradável, a praia de Bombas virou espaço “fitness”: pessoas de idades diversas, sós ou acompanhadas, fazem alongamento, correm ou caminham na extensa faixa de areia firme. São casais com filhos, namorados e amigos que, pelas roupas e fisionomias, facilmente se identifica como “gente de fora”. Mas há os pescadores também. Estão por ali, em pequenos grupos, conversando e vigiando. O sinal mais evidente dessa presença, entretanto, está nas canoas. Compridas embarcações nascidas cada qual de um único tronco de árvore, descansando sobre escoras de madeira (as estivas), aos pares, dispostas a intervalos ao longo da orla. Uma trilha de estivas na areia mostra o caminho que elas fizeram desde o barracão até o meio da praia. Recheadas com metros e metros de redes, os remos enormes, esperam o momento de descarregar o fardo de boias, chumbadas, cordas e fiadas na água. Diante da falta de trabalho, ficam a postos, aguardando.

Nesta manhã de sol, pouco há para fazer além de esperar, vigiar o mar, igualmente quieto, ou espiar as meninas que desfilam de biquíni de um lado para outro, próximas da linha d’água. Na varanda vazia de um restaurante que só abre na temporada, dois rapazes consertam buracos na sua rede. Mais adiante, no “Rancho do Pequeno”, quatro pescadores resolveram passar o tempo jogando dominó numa mesa na varanda. Outros, dentro do boteco, assistem pela televisão a mais um jogo da Copa da Alemanha de futebol.

– Essa temporada, mataram umas dez mil tainhas em Bombas – informa um jovem alto, de cabelo e barba crespos, que antes de o repórter abrir a boca já o identifica pela ascendência paterna (passaporte infalível nessa comunidade onde não se é conhecido pelo nome, mas como sendo “filho do fulano” ou “da fulana”). Ele caminha ao lado de um companheiro mais velho, baixo e calado, os dois apressados pela proximidade da hora do almoço (são quase onze horas). As dez mil tainhas foram capturas em maio, ele confirma. Neste mês, apanharam até aqui apenas quarenta ou cinquenta delas. O calor não ajuda, o pescador concorda, mas indica que há cardume por perto:

– O peixe tá no costão – diz, referindo-se ao aglomerado de pedras à esquerda da praia. Todos vigiam atentamente o local. O problema é que os peixes teimam em ficar por lá.

 


(*) Este texto foi escrito originalmente em 2006, para a sequência do livro Contam os Antigos… História e Lendas de Bombinhas (2005), cuja publicação (da segunda parte), ainda está repousando na gaveta.

Mick Jagger no Terno de Reis

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Imediações do “Beco do Amadeu”, 3h45 de quinta-feira.

Dezenas de “Cálix bento” e “Papagaio pena de ouro” depois, o pessoal já acusa o cansaço. Mesmo assim, ainda há um evidente clima de diversão, demonstrado nas trocas de olhares que parecem compartilhar uma piada secreta.

Mais importante: todos sentem o alívio de terminar a noitada de Reis com dignidade, após três tiros n’água que nos fizeram suspeitar de que havia um “Mick Jagger” entre nós.

Antes, claro, houve três acertos. O primeiro ainda na noite de quarta, lá no Canto Grande, onde, embora alertada de antemão da nossa visita, a proprietária da charmosa pousada Vida Feliz, Marisa, nos recebeu com genuína emoção. Assim como os hóspedes da casa, um dos quais brindou o Carlinhos com uma garrafa da boa cachaça mineira.

Dali seguimos para Porto Belo, onde ocorreu a segunda visita bem-sucedida: Jamil e dona Lete nos receberam com pastéis de forno, bolo de chocolate e cervejas. E aderiram ao cortejo, junto com a Rafa e a Naná.

E todos fomos até a casa de Carlão e dona Áurea, com resultado idêntico aos primeiros: a alegria de receber à porta um terno de Reis, do jeito como era antigamente.

Daí em diante, a coisa desandou.

Primeiro, na bodega do Carlinhos. Quase ninguém na rua, só dois curiosos na esquina, e nada da Bel ou do Carlinhos aparecer para reforçar a cantoria.

Mais uma tentativa: um tio do Cesinha. Apenas o cachorro da casa apareceu, após duas músicas, e ainda assim não se mostrou muito impressionado. Fez sua função de cão, latiu protocolarmente, mas ninguém mais apareceu.

Partimos para a última visita da noite, um pouco deprimidos a essas alturas. E não é que na casa do Geraldão, pai do nosso repentista Coveiro, a sorte não mudou? Nem adiantou aumentar o tom, puro desespero já, que a luz da garagem manteve-se teimosamente apagada.

Desânimo total (ainda mais que, nos chegou a informação, Geraldo tinha abarrotado a geladeira de cervejas. Acontece que tem o sono pesado, e ficamos a ver navios).

Foi então que a Rafa deu a dica certeira: “Vamos no Romilton!”

Dito e feito. Nem chegamos ao “era o eu, era o Rei do mundo inteiro” e a luz da frente já acendeu. Romilton recebeu-nos, assim como a Nice e o Júnior, com entusiasmo, não obstante o adiantado da hora.

E assim, desempatamos o placar. Nada mal para uma noite de trabalho.

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Vadico bebia sangue

Em um raro retângulo de terra no meio do apinhado e caótico cemitério de Porto Belo, enquanto Betinho profere uma emocionada elegia para o Vadico, que espera em seu caixão que o deitem ao fundo da cova aberta, o orador exaltando o “espírito tropeiro” do Vadico, e uma sequência de rostos iguais ao dele, mas em idades diferentes (seus irmãos), ouvem graves essas palavras, passa-me pela cabeça, quente ao sol desta manhã de sábado, um pensamento esquisito: “Vadico bebia sangue”.

Era o que eu ouvia quando criança, na época em que o Vadico realmente se imbuía do “espírito tropeiro” do qual falava o Betinho. Naquele tempo, quando trabalhava no matadouro do seu Valter e exibia um físico robusto, diziam que ele, ao abater os animais que seriam vendidos no açougue do patrão, costumava sangrar os bichos e tomar, de um gole só, um copo do sangue ainda quente dos animais. Devia a isso a sua boa compleição.

Muito se passou e o Vadico que vi caminhando pela última vez, com uma espécie de sobretudo, chapéu de caubói (lembrei-me do seu Amarando) e botas de sete-léguas, era um fiapo do sujeito forte que havia sido um dia. Culpa de outros tipos de beberagem.

Mas, ali no cemitério, lembrei-me de outro episódio, uma conversa surreal que uma vez ele teve com meu pai. Caminhavam os dois pela rua quando, alguns metros mais à frente na estrada de barro, caminhava sossegadamente um gato (seria um cachorro? Não recordo exatamente qual era o bicho, mas isso não importa). Sem dizer palavra, o Vadico inclinou-se para pegar uma pedra, se ergueu, olhou para o meu pai e perguntou, cerimonioso:

– Tio, mato?

E o meu pai, igualmente sério:

– Mata.

Não me consta que tenha matado, mas eu e o Arão sempre damos boas risadas relembrando o inusitado diálogo.

Foi-se o Vadico, que eu achava uma versão batida pela intempérie do ator norte-americano Willem Dafoe, e uma parte do Porto Belo que ele viveu vai-se junto. Uma época de “aventuras”, conforme sublinhou Betinho: aquela que nos dava como quintal de casa todo o espaço onde os pés descalços conseguiam levar. De boi no mato, banho de mar no Barão, goiaba no pé e pelada no Baixio nas manhãs de sábado.

Vadico, como todos nós, tinha os seus defeitos. Não era, claro, um herói de filme de Hollywood. Mas, lembrou a minha mãe, tinha um coração enorme. Foi justo que lhe tenham honrado com um belo discurso.

Hercólubus em Porto Belo

De tempos em tempos, um aviso aparece em “lambe-lambes” colados nos postes da Governador Celso Ramos, anunciando: o fim está próximo. Sim, senhores, Hercólubus, o temível planeta vermelho (ops!), está novamente a caminho da Terra, e sua visita promete convulsionar nosso pobre planetinha azul. As epidemias e perturbações climáticas que estamos vendo são apenas um aperitivo. O pior ainda está por vir.

Hercólubus

Hercólubus: a verdade está lá fora

Pelo menos, era nisso que acreditava o místico colombiano Joaquin Enrique Amortegui Valbuena (1926-2000) – ou, para os chegados às suas teorias, V. M. Rabulú. Em 1998, ele escreveu Hercólubus ou Planeta Vermelho, livro ao qual fazem referência os cartazes que apareceram no início de março na avenida principal da cidade.

Segundo a Alcione, uma associação criada na Espanha em 2007 para divulgar a obra de Rabulú e que distribui o livro gratuitamente para todo o planeta, Hercólubus “é resultado das investigações de seu autor nas dimensões superiores da natureza”. O que vem a ser isso? Bem, aqui temos uma explicação do autor: “Sustento o que escrevo neste livro porque conheço, estou seguro do que digo porque tenho investigado a fundo com meu corpo astral, que é o que me permite dar-me conta de tudo, minuciosamente”.

Minha curiosidade surgiu pela frequência com que encontro os cartazes do livro colados pela cidade. Algum abnegado seguidor do guru colombiano, sem dúvida. Entrei em contato com a Alcione para tentar descobrir quem seria o agente dessa campanha. A entidade, porém, desconhecia a ação: “Nós, da Associação Alcione, não colamos cartazes em postes por ser proibido na maioria dos municípios brasileiros. Sabemos que há simpatizantes do livro que fizeram cartazes com nossos sites e página do Facebook (sem nenhuma autorização nossa) e que têm colado em alguns municípios brasileiros. Infelizmente, nós não temos nenhum colaborador que mora na região de Porto Belo”, informou a associação via Facebook.

Por coincidência, nesta mesma semana em que buscava saber mais sobre os “avistamentos” do Hercólubus em Porto Belo, encontrei no Facebook um link para uma matéria do tabloide britânico The Sun, de 6/04, na qual o astrofísico Daniel Whitmire, da Universidade da Louisiana (EUA), afirma que o Planeta X, que foi responsável pela extinção dos dinossauros, pode repetir sua desastrosa performance… neste mês!

Para Whitmire, o Planeta X é o Planeta Nove descoberto no mês de janeiro e que tomou a vaga que antes era de Plutão, atualmente na segunda divisão planetária. Na verdade, ninguém viu o novo planeta ainda, mas pesquisadores do Instituto de Tecnologia da Califórnia afirmam ter encontrado “evidências sólidas” de que ele existe. Pelos cálculos dos pesquisadores Konstantin Batygin e Mike Brown, ele tem dez vezes o tamanho da Terra e orbita o Sol a uma distância vinte vezes superior à de Netuno, que é o planeta mais distante do Sistema Solar. Aparentemente, devido a sua órbita incomum, demoraria em torno de 15 mil anos para dar uma volta no nosso astro-rei.

Seria o Nove Hercólubus? Claro que muita gente relacionou a descoberta ao misterioso planeta vermelho, ou então a Nibiru, astro mencionado em antigos mitos sumérios (e que deveria ter decretado o fim do mundo em 2012), entre outras teorias que os cientistas desdenham como coisa de maluco. Mas, pelo sim, pelo não, acho que vou encomendar meu exemplar do livro… Se der tempo.

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