Categoria: Textos da gaveta

Alex, um perfil

No último post, conversávamos sobre música. Especificamente sobre o pessoal que fez ou faz a cena musical da cidade. Coincidência ou não, boa parte da turma que citei esteve reunida no Vila Nova para uma celebração surpresa pelo aniversário do Alex, na casa deste, na última terça-feira.

Coveiro, Cezinha, Jefinho, Maninho, o baterista de Itajaí Dunga… não faltou músico na festa (ninguém pensou em uma jam, infelizmente). Outros amigos do guitarrista apareceram e a noite seguiu descontraída.

Já escrevi aqui antes sobre o Alex. Mas gostaria de tirar da gaveta uma entrevista que fiz com ele em 2002, para a Univali. Tinha pensado em usá-la naquela primeira oportunidade, mas o texto foi ficando de lado. Trata-se de um perfil que fiz dele em novembro de 2002, para a Univali.

Alex Sancho: “É hora de apostar”

Perfis são uma das coisas mais legais que se pode fazer em jornalismo. Mas, embora escritos dentro das “técnicas da reportagem”, nem sempre se pode ter certeza de que o retrato ficou fiel ao retratado ou se apenas traduz a forma como a gente vê a pessoa. De qualquer modo, vale arriscar. Segue abaixo o texto:

Não seria muito exagero dizer que, no Brasil, existe um músico ou banda em cada esquina. Fica fácil perceber esta proporção, basta circular por qualquer canto, em qualquer lugar. Na noite, em bares ou boates, em pequenas reuniões de amigos, lá está o violão, ora tocado com talento, ora com mero esforço. Nas garagens os acordes distorcidos perturbam os vizinhos. A caminho do trabalho, alguém cantarola uma melodia.

A música faz parte da vida das pessoas. Cada canção já composta desperta algum sentimento no coração de alguém. Alguns, entretanto, sentem um apelo maior: já não lhes basta apenas ouvir as músicas preferidas, é necessário tocá-las, propor acordes novos, impor um estilo particular às composições, criar as próprias melodias, as próprias mensagens – criar um jeito particular de fazer música. Este impulso, em geral, traz consigo um sonho: o de fazer sucesso e viver da música.

Alex Sancho possui este sonho. Aos 28 anos, contabiliza dez como guitarrista. Atualmente toca na banda Uniclãs, de Porto Belo, no litoral norte do Estado. Prestes a ter nas mãos o primeiro registro em CD oficial da banda, Alex acredita que sua hora chegou.

A Uniclãs é formada por um grupo de amigos que em 2001 reuniu-se para desenvolver músicas próprias, apoiadas nas letras criadas por Nando Kruscinscky, vocalista da banda. O resultado foi tão bom que no mesmo ano o grupo já tocava em bares da cidade. A identificação dos jovens da região com o novo som foi imediata.

“A gente se chocou, a galera gostando e dando apoio. É até absurdo,  porque tem aquela de que santo de casa não faz milagres”, comenta Alex.

No ano seguinte a banda lançou um CD demo, realizou um grande show e vendeu as mil cópias que havia produzido, chamando a atenção do promotor de eventos Juracy de Almeida, da Tâmisa Eventos. No início de novembro, começou a grande guinada.

Por conta de Juracy, a Uniclãs entrou no estúdio Schema 336, em São Paulo, para gravar seu primeiro trabalho profissional, a ser concluído no início de 2003.

A experiência em São Paulo ainda emociona Alex: “Foi um salto, tu ver um músico como o Oswaldinho do Acordeon, tocando ali do teu lado e gostando do teu som, é como um sonho”, empolga-se.

Além de Oswaldinho, outros músicos foram convocados para participar do trabalho do Uniclãs, cujo estilo é uma mistura vários ritmos, do baião ao reggae, com os arranjos marcantes da guitarra de Alex, o baixo de Cesinha, os violões e guitarra de André, a bateria de Guto e o vocal de Nando.

A boa fase da banda é, para Alex, o grande momento de uma trajetória de dificuldades. Canhoto, começou aos 15 anos a tocar violão, invertendo as cordas de um Tonante que comprou com seu primeiro salário como balconista em um bar da cidade. O instrumento ele mantém até hoje, ao lado de uma Washburn, uma Fernandes e uma Guilber, todas guitarras feitas para canhotos.

No começo, a idéia era tirar músicas do Legião Urbana, Titãs e Nenhum de Nós e fazer sucesso nas rodas de amigos e com as meninas. O temperamento tímido, entretanto, o levou ao isolamento. As lições de violão e guitarra passaram a preencher o vazio social na vida de Alex, que varava noites tocando no seu quarto. Tanta dedicação sedimentou uma técnica apurada e o músico passou a ser reconhecido na cidade como um grande talento. Ele, porém, demonstra modéstia: “Me considero, para o padrão da banda, um bom músico. Mas sei que preciso evoluir, tem sempre que buscar uma coisa nova”.

Assim como todos na Uniclãs, Alex não mantém outro emprego. Vive “cheio de altos e baixos”, tocando com a banda ou dando algumas aulas de violão e guitarra. “No inverno é mais complicado, tem mês que toca, tem mês que safa”, conta. Há seis meses conheceu Leydiane Reis Amaral, 20 anos, por quem se apaixonou e hoje vivem juntos, à espera do primeiro filho. “Agora aumenta a responsabilidade”, reconhece.

Ao mesmo tempo, com o casamento veio o apoio e a tranqüilidade para acreditar no sonho: “No começo pensei assim: ‘Se demorar a acontecer, ou não acontecer, vou ter que tomar uma decisão radical’. Mas pintou um lance maior na banda e é hora de apostar”.

Refletindo sobre sua trajetória e a importância da música em sua vida, Alex não vacila em concluir: “Foi fundamental, era o que mais me dava ânimo, em algumas épocas era no que eu mais me apoiava”. Hoje, o guitarrista visualiza a possibilidade de ouvir a Uniclãs tocando nas rádios, subindo em palcos do eixo Rio-São Paulo. Paralelamente, acalenta o sonho de gravar um trabalho instrumental, marcado pelas suas influências de jazz, rock e MPB.

O mais importante, avalia, é fazer daquilo que mais ama um meio de vida: “Agora se abriu um horizonte novo, a oportunidade de conhecer um monte de gente que só ouvia no CD e sendo respeitado por eles. Para o futuro espero que a gente possa estar ainda na música, evoluindo nela e vivendo com dignidade”, conclui.

Uniclãs

Não faz muito tempo, a Uniclãs, creio que o projeto mais duradouro e bem-sucedido de Porto Belo, resolveu se reunir e, quem sabe, reviver seus bons momentos. Banda, entretanto, voltou a sair de cena após alguns shows, vítima dessa instabilidade tão típica do meio musical. Não houve tempo para mais um registro em CD com a formação original, uma pena.

Entre os êxitos que a Uniclãs conquistou, está o memorável show que a banda fez em Florianópolis dia 4 de abril de 2004, com a participação do vocalista da Titãs, Paulo Miklos. Lembro já ter falado sobre isso aqui no blogue. Gostaria, no entanto, de compartilhar um texto que guardei aqui na minha gaveta virtual. Trata-se de uma resenha que fiz daquele show, para uma disciplina do curso de jornalismo. De marcante daquele show, e que não está no texto, foi o momento em que o Ronaldo (Rona), já falecido, subiu ao palco para abraçar e cantar junto com o titã. Segue o texto:

Uniclãs versão 2018: banda voltou a se reunir para celebrar os 15 anos do disco de estreia (foto: Camila Bernardi Hegele )

Fazia algum tempo que eu não via uma apresentação ao vivo da banda Uniclãs, de Porto Belo. Confesso, de antemão, que a minha maior motivação ao ir vê-los na noite de domingo, 4 de abril, no teatro do Centro Integrado de Cultura (CIC), em Florianópolis, foi a prometida participação do vocalista do Titãs, Paulo Miklos. Devo dizer, aliás, que a presença do “titã” no show foi para lá de especial. No entanto, o que me impressionou mesmo, foi a qualidade da apresentação da banda “da casa”.

Tenho que ressaltar, ainda, que não conhecia o CIC e que fiquei logo encantado com o local. Serviu de moldura perfeita ao show, que começou pontualmente às 21h30. Pena que o público da ilha, por uma compreensiva ignorância em relação à banda, não compareceu. A ausência, no entanto, foi compensada pela presença maciça dos fãs de Porto Belo e Bombinhas, que lotaram três ônibus fretados especialmente para garantir o quorum que a noite pedia.

Voltemos ao espetáculo. A banda, que lançou há um ano seu primeiro CD, “Viagens no Exílio”, debulhou com competência seu set list, como de costume iniciando a festa com a música-título do disco. De cara, foi possível perceber a evolução musical do sexteto, particularmente o baixista Cezinha, que sempre pareceu meio pregado no chão e, nessa noite, desfilou suas linhas de baixo com bastante segurança, sinal de que o pessoal anda se esmerando nos ensaios.

O carisma do vocalista Nando surpreende. As menininhas se espremem num canto junto ao palco e forçam um chilique, mas ele não tem nada de star e vai mandando bem, naquele vocal meio Zé Ramalho, as letras cheias de mistérios e predições que caracterizam o repertório da Uniclãs. Aproveito para me apropriar da definição que fez certo colunista do AN, que classificou o som da banda como sendo “rock messiânico”. Bastante original e, quem sabe, uma futura tendência musical no país.

A banda tem suas próprias influências e lançou mão de vários covers, por sinal muito bem escolhidos. Além do tradicional “Heavy metal do Senhor” – o meu favorito – e “Hey Joe” (letra do Rappa), a banda incorporou “Brasil”, do Cazuza e transformou o palco numa tremenda batucada, com o baterista Guto e o percussionista Carlinhos ditando o ritmo da bagunça. A platéia adorou. Houve espaço para Luiz Gonzaga (“Asa branca”), cantando em conjunto com a joinvillense Aninha da Silva, ela também uma desconhecida de talento em busca do seu espaço.

Depois de esgotar todo o set, Coveiro (violão) anunciou a atração esperada. Interessante que, na TV, o Paulo Miklos parece bem maior. Quem entrou no palco foi um baixinho, saudado pela banda aos acordes de “Sonífera ilha” (em homenagem a Floripa, cortejou Miklos, e o CIC quase foi abaixo). Veio “Bichos escrotos” e o vocal dos Titãs estava bastante à vontade com sua banda de apoio. Vi que ficou impressionado com os riffs ligeiros de Alex (guitarra). E com razão: Alex um dos melhores guitarristas que já vi.

E a festa seguiu assim, Uniclãs e Paulo Miklos tocando músicas do Titãs, eles se divertindo ali e o público se deliciando com aquele encontro que ninguém jamais imaginou ver. O convidado saiu ovacionado e a rapaziada continuou no pique. Miklos ainda voltou para um bis, empunhando uma flauta doce. Uma pena que a banda encerrou o show sem tocar “Ô, cabloco”, uma das suas melhores composições. Mesmo assim, foi um show impecável. Em agosto, a banda segue para São Paulo em busca de espaço para a sua música. Que tenham sorte por lá, pois talento não lhes falta.