Seu Zeli (ou A arte de perder oportunidades)

Uma vez iniciei um texto sobre seu Zeli. Chamei-o “Um velho rabugento”. Mas não passei da introdução

Ontem eu soube pela Rafa (que passou a informação com tristeza) que o velho casarão do Seu Zeli já não existe mais. No domingo havíamos passado em frente ao antigo armazém de secos e molhados e observado que as janelas e paredes internas haviam sido removidas. Planejei voltar lá e fotografar o prédio antes que sumisse, mas perdi a oportunidade.

Tal como aconteceu com o casarão da esquina da Alda Tavares com Leopoldo José Guerreiro, perdi muitas oportunidades de conversar com seu Zeli, que morreu faz muitos meses. Há bastante tempo, a lanchonete do Calinho ficava onde até há pouco estava o Porto Vip, e presenciei uma conversa entre Calinho e o Tonho, filho do seu Zeli. Tonho contou uma série de histórias divertidas sobre seu pai, e também as dificuldades dos primeiros tempos da doença deste.

Seu Zeli diante de seu tradicional comércio no número 165 da antiga rua Moreira César (foto: Facebook)

Vivia encontrando seu Zeli, personagem marcante de nossa infância, conhecido por uma insuperável rabugice, sentado defronte à Videosol ou à porta do seu armazém. Parecia à espera de uma conversa. Mas jamais me aproximei.

Mantive o interesse, motivado pelas histórias que o Valmor Moraes contava de seu Zeli. Dizia o Valmor que, nos primeiros tempos do turismo em Porto Belo, ele, Ivan Bertemes e outros brincalhões tinham por diversão mandar turistas incautos ao armazém do seu Zeli sempre que solicitavam alguma coisa  incomum:

– Onde podemos alugar um cavalo?

– Vai lá no seu Zeli!

Invariavelmente, o pobre turista, ao atender a indicação, recebia como resposta do seu Zeli um caminhão de desaforos. Era a farra do pessoal do Valmor.

Uma vez iniciei um texto sobre seu Zeli. Chamei-o “Um velho rabugento”. Mas não passei da introdução. Perdi a oportunidade. Assim são as coisas que envolvem a memória das pessoas e da nossa cidade. Os lugares e seus personagens se vão. Se não documentarmos enquanto temos possibilidade, perderemos pequenas preciosidades.

Acho que já passou da hora de visitar o seu Nabor…

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  1. Vadão

    Seu Zeli!!!! eu diria que foi o bom rabugento, se é que me entendem, pois com toda sua cara de poucos amigos, não foram poucas as vezes que passei por ele…bom dia, seu Zeli e ele, acenando com a cabeça, oooo, Vado, com um sorriso que te desmontava.

    • Pois é, Vadão. Seu Zeli é um desses personagens nossos que merecem uma biografia. Lembro que, quando moleque, no tempo da “baguinha de vidro”, era lá que a gente corria pra comprar as ditas baguinhas (ou bolinhas de gude, se preferem). Abraço!

  2. CARLOS ROBERTO DE SOUZA

    Caro Dil,

    Há algum tempo atrás, o Aristides ou “Ti”, me falou de teu interesse em conversar comigo. Não sei exatamente o que te interessa, mas conheço e tenho ótimas histórias para teus registros.

    Forte abraço,

    BETO, o filho do tropeiro Valter.

    • Olá Beto. De fato, conversei com o Ti sobre a ideia de recolher material para um possível livro a respeito de Porto Belo. Ele sugeriu o seu nome como uma boa fonte para isso. Fico contente com o teu interesse em colaborar com suas histórias. Precisamos marcar uma hora para conversar, se não te importas. Um abraço.

  3. Roberta Maas dos Anjos

    Oi!!
    Obrigada pelo carinho para com meu avô.
    Li a reportagem com muita saudade.
    Ele deixou marcas e faz muita falta!!
    Apóio a ideia do livro e me coloca à disposição para contribuir.
    Abraço, Roberta
    (filha do Tonho)

    • Oi Roberta. Fico contente que tenhas gostado do texto, embora tenha sido superficial (quanta coisa não se poderia dizer do seu Zeli?). Obrigado pelo apoio ao projeto. Acho que, realmente, ele precisa ser executado.

  4. Posso dizer que o tio Zeli, era de verdade muito rabugento, mas foi uma pessoa que trabalhou muito a vida inteira e sempre foi muito honesto. Lembro da época em que éramos todos crianças e jovens, sempre podíamos chegar na casa da tia Misa e tio Zeli, que tinha lugar para dormir e comer, e quando ele acordava de mau humor….a gente fugia dele..rsrs

    Raquel Ramos dos Anjos (filha de Gercy dos Anjos, irmã de Roberto Ramos dos Anjos, sobrinha de Zely dos Anjos)

  5. zaira izabel rosa

    Não poderia ficar fora, já que fui ou sou a nora mais “quirida”do seu Zely. Me desculpem as outras, mas nosso amor foi de pai para filha, não tenho dúvida!
    Chorei ao ler e reler, me emocionei com o “bom velhinho rabugento”. Este era ou é meu sogro! Com o maior coração do mundo, protegido pela rabugice (se é que existe esta expressão).
    Obrigada pelo carinho com o seu Zely, prá mim ele foi e sempre será o mais guerreiro dos “velhinhos”…

    Zaira (Ziza)

  6. Luiza dos Anjos

    Meu pai amava Porto Belo, amava a vida e amava aquela loja.
    Foi um guerreiro. Venceu uma leucemia; venceu um cancer de próstata; venceu um tumor maligno de 20 cm no intestino; venceu um melanoma no rosto; venceu várias cirurgias no abdome, mas não venceu um tumor no fígado.
    Aprendi demais com meu pai.
    Um dia qdo o acompanhava numa químio, ele olhou para a enfermeira e disse: “isso vai demorar muito? Tenho um comércio para abrir”.
    Querido e amado pai! Te amo!
    Obrigada por lembrarem dele.

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