20 graus na subida: meu relato dos 21km do Soloman

Na saída da picada que dá acesso à ponta direita da praia da Tainha, uma dupla combina parar para uma foto. Ofereço-me para clicá-los, mas eles, polidamente, declinam. Havia esquecido: atualmente, essa gentileza não é mais necessária. A moda é o selfie.

Solomon

Antes e depois: a saída em Zimbros e a chegada em 4 Ilhas, uma eternidade depois (foto: Elisabete Mafra)

Devia estar, nessa altura, pelo oitavo quilômetro da corrida. A largada dos 21 quilômetros do Soloman havia sido quase uma hora antes, na ponta direita da praia de Zimbros. Cerca de trinta corredores se alinharam na largada improvisada, animados, no final da manhã de sábado, 2 de agosto. Dia estava ensolarado, a temperatura em ascensão. Nada que lembrasse o inverno.

A chegada, em Quatro Ilhas, parecia a uma eternidade de distância. Correndo na areia da praia, a mochila que o André (Coveiro) gentilmente emprestou pesava na costas – inadvertidamente, havia abastecido com muita água. Também não a tinha ajustado direito, e ela dançava desajeitadamente a cada passada. Procurava, prematuramente, regular a respiração e fazer baixar a adrenalina. As pernas já doíam e eu tentava me convencer que, assim que o corpo aquecesse, a dor sumiria.

Do Zimbros para o início da praia de Canto Grande, na altura de Morrinhos. A areia fofa não ajudava e, na frente, alguns corredores já poupavam fôlego caminhando. O final da praia aparecia distante, minúsculo, e já me parecia impossível chegar até lá. Nas minhas contas, se chegasse inteiro até a Tainha, teria chances de terminar o percurso.

Finalmente, o início da trilha da Tainha e a promessa de sombra e um pouco de descanso, já que, seguindo a cartilha do André, iria poupar o fôlego galgando a passo as subidas. Já estava sem ar e não era o único. A trilha estava escorregadia, provavelmente em função do pé d’água da noite anterior, e era preciso cuidado. Mas a vista da baía de Zimbros compensava e não era raro quem ficasse boquiaberto com o visual.

Um pouco na frente, chapinhava na lama, com mais dois corredores à frente, quando passa pela gente o cara de que todos se admiravam no começo da corrida. Barbudo e praticamente em pelo, apenas de calção, o sujeito corria descalço, feito um aborígene. Passou pela gente como um foguete.

Na outra ponta da pequena praia da Tainha, um posto de abastecimento de água. Havia ainda muita na mochila, então sigo em frente. Hora de dar a meia-volta e iniciar a subida. Hora também de um lanche. Saco minha barra de cereal para o almoço. A subida é íngreme e procuro ânimo repetindo que “toda subida premia com uma descida”. Com esse mantra na cabeça e passando ileso por um cachorro que o garotinho, seu dono, acalma, chego à estrada.

Um pouco de plano e mais subida. Procurando nacos de sombra no caminho, conjecturo sobre a razão de estar ali. Predisposição genética, herança de nosso passado de caçadores-coletores, que nos gravou com o gosto pela vida ao ar livre, como afirmou Carl Sagan? Impulso irresistível pelo risco e a aventura, como sugere Jon Krakauer? Um pouco de abstração é bem-vinda nessas horas.

Enfim, as árvores param de apontar para cima e o azul do céu indica a descida. Ganho um abraço refrescante do vento, como que dizendo: “Agora está comigo parceiro, fica tranquilo. Vai ser bico”. Emparelho com outro corredor que me pergunta sobre qual distância percorremos. Chuto uns dez quilômetros. Pergunto sobre o tempo de corrida: uma hora e dezessete. Qual a temperatura? Depois de um tempo para que o celular ache o sinal, 20 graus. Parece quarenta…

Leonardo é de Curitiba e está um período treinando em Bombinhas. Já fez essa trilha. Com uma câmera Go Pro colocada sobre a fronte, vai gravando o percurso. Tem feito isso nas últimas provas de que participou, para montar um álbum de imagens.

Com o colega ao lado, estamos de volta ao nível do mar. Cruzamos rapidamente a Conceição e começamos a enfrentar a enormidade de areia da praia do Mariscal. Melhor pensar no que ficou para trás. A panturrilha esquerda começa a reclamar do esforço. Leonardo sugere correr um pouco na linha da maré para esfriar a perna. É o que faço, mas o cansaço é evidente. Diminuo um pouco a marcha e me concentro em seguir adiante: “Só até aquele guarda-sol ali”, “agora, só até aquele prédio lá”…

Uma eternidade depois, o fim da praia. No posto de abastecimento de água, recebo agradecido, com as mãos tremendo, o copo de água fresca. A pressão desaba e temo desmaiar ali mesmo. Adiante, o asfalto do morro do Mariscal oferece o consolo de uma caminhada. Com calma, batendo papo, eu e o Leonardo iniciamos a subida. Já são duas horas de corrida.

“Daqui, dependendo da descida, são uns quarenta minutos”, Leo tranquiliza. No topo, porém, a panturrilha trava. Devo agradecer ao Coveiro pelas meias de compressão. As câimbras teriam vindo mais cedo, com certeza. Consigo dar uma meia-sola na perna e descemos o morro, conversando sobre futebol (meu parceiro é atleticano, do Paraná).

Ao fim da descida, mais câimbras, e não só nas panturrilhas. Leonardo também enfrenta as suas. Mas conseguimos vencer o morrinho que leva à praia de Quatro Ilhas. Só que ainda falta um último desafio: é preciso dobrar à direita e subir o morro daquele lado, só um quilômetro para acabar, diz a moça que indica o caminho.

Na subida, mais inteiro, Leo dispara. Fico na companhia de uma corredora que nos havia ultrapassado no morro do Mariscal, mas errou o caminho na estrada de Quatro Ilhas. A subida é extenuante, estou à beira da exaustão. Damos a volta e, para compensar, tem o visual do costão, com as ondas batendo tão forte quanto o coração no peito. Acelero na descida, agoniado por chegar, mas há outra subida e o fôlego some. Subo cambaleando, sob os olhares de um grupo que aproveita o sol, e desço com cautela, tentando economizar o gás para o final.

De volta à praia, e já dá para ver a concentração na outra ponta. Mas a panturrilha trava e dou uma parada. Tento correr novamente, não dá. “É câimbra, né?”, pergunta um corredor que passa por mim. “Tive que fazer o último trecho ‘rolando'”, ele me conta. Pisando com os calcanhares, sigo em frente. De cócoras e com a câmera na frente do rosto, o Fabrício, da Foco Radical, está novamente clicando o pessoal. Não quero sair na foto me arrastando…
Nessas alturas, já procuro pela Bete e a Cissa na praia. Vem-me à cabeça o verso do Cazuza, “sem pódio de chegada nem beijo de namorada”. Mas é só um instante. Logo diviso a Bete. O pessoal que chegou antes está ali e certamente aplaude. Não ouço. Daniel Meyer, que é quem organizou a prova, pergunta meu nome. “Alcides Mafra”, ainda lembro. Digo a ele que o Coveiro mandou um abraço. Ele me abraça em retribuição, diz que o André é um grande cara. A Cissa, minha filha, chega e eu me abaixo para abraçá-la. É hora de dizer uma palavra que vinha ensaiando bem antes, lá na Tainha, quando pensei em escrever este relato. Três sílabas apenas, uma ideia simples. Mas poderosa como a vontade: “Consegui”.

solomon 2

Foto: Elisabete S. Silva

Anteriores

Estrada do Araçá: lixão com vista para o mar

Próximo

Pirão: e aqui chegamos ao fim

  1. Rúbia Serpa

    Grande Dil, parabéns!!!

  2. Naná

    Parabéns Dil, pelo desafio e pelo texto! =D

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *